X Semana Cultural

Foi apresentada, ontem em conferência de imprensa, a X Semana Cultural da Reitoria da Universidade de Coimbra.
O formato desta edição já está a criar celeuma. O crítico Pereira Morgado escreve sobre o evento e assume a inteira responsabilidade pelo post.
“Lx e Paris”
A Semana Cultural que vem de lá de Lisboa, e até da França. No início de Março, mais precisamente do dia 1 ao dia 8, decorrerá como já é hábito a Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Parece que o novel pró-reitor quis alterar um pouco a fisionomia do acontecimento e resolveu moldá-lo de outra forma. O traço mais vincado dessa mudança foi o de convidar/designar Giacomo Scalisi e Madalena Vitorino para conceber todo o evento, pelo menos no respeitante às denominadas “artes performativas”. Este gesto do pró-reitor deixa-nos várias hipóteses em consideração; ou não se sentiu a pessoa mais indicada para o fazer, ou pensou que a senhora Madalena Vitorino e o senhor Scalisi o poderiam fazer melhor, ou outras ainda, que não seremos capazes de descortinar sem a ajuda do próprio. Esta escolha, por si feita, poderá levantar algumas questões de ordem prática; qual o conhecimento que Madalena Vitorino e do senhor Scalisi tem da cidade, da universidade e da academia? E dessa forma qual a sua futura relação com o que a semana cultural pode dar a partir do seu âmago, seja através dos grupos da cidade, das secções ou dos organismos autónomos da academia? Não valeria a pena entrar muito por aí, não fosse o caso de ter saído para domínio público, faz já algum tempo, a programação das artes performativas da Semana Cultural. E é nesse preciso momento que todas as suspeitas da má opção do pró-reitor ganharam corpo. O que temos de mais relevante nesta programação é a simples aquisição de espectáculos já concebidos noutros contextos, que dispensam a participação activa da comunidade artística local (apesar de tudo isto ser mascarado com participações fugazes de pessoas interessadas em fazer figuração), e que em nada fazem crescer os grupos ou criadores já existentes em Coimbra. Sendo um pouco mais incisivo, posso mesmo dizer que esta atitude do pró-reitor, desde o convite a Madalena Vitorino até à aprovação do programa, foi o maior atestado de incompetência passado aos grupos e aos criadores locais nos últimos tempos. Temos uma Semana Cultural que é só “de fora para dentro” e que de certa forma até marginaliza os artistas e criadores da cidade, quando não lhes permite (ou muito pouco) mostrar o seu trabalho, quando se sente que os workshops que estes grupos vão dar só têm a função de “cala povo”, e quando não houve uma consulta para a averiguação da pertinência dos mesmos nem se sabe sobre o que tratam. São, no fundo, uma dicotomia entre oferecido/impingido que apenas possibilitam às pessoas menos informadas estar perto dos artistas vindos de longe, que fascínio! Se iria haver formação seria profícuo sondar os interessados (grupos da academia e agentes culturais da cidade) sobre o que gostariam de experimentar ou consolidar. É como no “outro ensino”, o aluno é sempre o último a ser ouvido, como se não tivesse capacidade para escolher o melhor para si. E agora desculpem-me a sinceridade, é óbvio que estes workshops não vão ter pertinência nenhuma. É tão óbvio para o que servem que confio na inteligência de quem lê e não falo mais sobre eles.
Mas gostaria de passar para um outro ponto que me incomoda um pouco mais, que são as escolhas do senhor Scalisi e da senhora Madalena Vitorino, vou mostrá-las mais detalhadamente: espectáculo “Lembranças” de Madalena Vitorino (que desempenha entre outras funções a assessoria para a área de pedagogia e animação na Fundação CCB); espectáculo “Caruma” de Madalena Vitorino, espectáculo “Os Vivos” pelo grupo de teatro O Bando, com encenação de João Brites, que já encenou um outro espectáculo de Madalena Vitorino, “Heureuses Lueurs” – exposição de máquinas de poesia e luz, de Flop Lefebvre,que já esteve no CCB e “Auprés de ma blonde” (fanfarra de 4 músicos) que obviamente, já passaram pelo CCB . Afinal parece a nossa semana cultural é uma visita de estudo ao CCB, com espectáculos da Madalena Vitorino e amigos, e nós, nós somos os comedores de restos do CCB e da Madalena…Vitorino! Convém frisar que os workshops atrás mencionados são dados, claro está, por elementos destes grupos e por Madalena Vitorino!
Agora pergunto, não é demasiado escandaloso que um programador faça uso da sua função para “colocar” espectáculos seus, não é demasiado escandaloso que num país tão pequeno tenhamos que levar com repetições de coisas que já se passaram há séculos em Lisboa. As pessoas hoje em dia já se deslocam, e se quiserem ir ver um espectáculo da Madalena Vitorino com certeza se deslocarão para esse fim. Não é um bocado ridículo que o espectáculo do Bando se instale por cá quando ainda neste último Verão ele estreou aqui tão perto, em Montemor-o-Velho, no Citemor, um festival que como se sabe tem imenso público de Coimbra. Eu estive lá e vi muita gente de Coimbra, e vi o Bando, e até tenho alguma pena de ter visto, e mais não digo. A única coisa que fica a faltar é um espectáculo do senhor Scalisi.
No ano de 2008 houve outro corte orçamental na Cultura em Coimbra, o orçamento aprovado para este ano é 80% inferior ao que existia em 2004.
Agora pergunto-lhe senhor pró-reitor, não teria sido uma óptima oportunidade para apoiar os grupos da cidade e assim estabelecer laços com a comunidade que só poderiam trazer vantagens futuras para a dinâmica cultural na cidade? Não teria sido uma vantagem ter um programador que conhecesse realmente bem a cidade e procurasse criar reais mais -valias entre os grupos locais e alguns grupos que viessem de fora e destes para a comunidade.
Foi um erro senhor pró-reitor, e mais do que isso, foi uma atitude provinciana (essa do “lá de fora é que é bom”) e foi uma tremenda falta de respeito e de solidariedade para com todas as gerações de artistas/criadores que ainda se vão formando e mantendo e por cá, a despeito das ofensas de autarcas “jogadores” e de vereadores com medíocres “testas de ferro”, que nem sequer sabem o que dizem e que no fundo desprezam a cultura. Não se junte a esse grupo. Ainda vai a tempo? Mas se calhar só para o ano…
Pereira Morgado




























Não percebo a crítica. Porventura o Dr. Morgado não estará a par do que é senso comum, quer na Beira Litoral, quer por todo o Portugal? Que o que vem de fora é sempre bom e ainda mais, melhor?! Sugiro que aí por Coimbra se deixem banhar pela inspiração dos iluminados, bem quietinho, atentos e bem comportados, senão levam falta e chumbam no exame. Coimbra serve para educar, porque obviamente, toda a malta que por aí anda, precisa de ser bem educadinha, aprender umas coisas… Só assim podem continuar a ser a tão aclamada Cidade do Conhecimento. Os outros fazem coisas, vocês ficam a Conhecer as coisas que os outros fazem. E não é bom? Vamos a ter mais tino, qualquer dia deixam de ser a cidade mais importante de pelo menos uma das Beiras.
Cordialmente,
Guilhermino
Guilhermino Cardoso
Fevereiro 16, 2008 em 3:47 am
Isto já foi ou vai para os jornais? Devia ir…
q
Fevereiro 17, 2008 em 5:14 pm
Anda a juntar-se um bando em Coimbra que não te digo nada.
Querem acabar com tudo a cultura, a queima, o pequeno comercio o divertimento nocturno, entretanto as grandes superfícies e os escândalos de corrupção parecem que estão em franco progresso.
Vítor Ramalho
Fevereiro 17, 2008 em 5:55 pm
Guilhermino,
A sua leitura até que nem é descabida. Mas quero que saiba que aqui há uns quantos que não querem ficar quietinhos e estão a marimbar-se para a boa educação. Aqui, ainda há resistentes. Espere para vê-los, em breve, em acção..
denunciacoimbra2
Fevereiro 17, 2008 em 8:33 pm
Vitor,
Calma amigo, os resistentes estão atentos…
Deixa-os crescer mais um pouco. Quanto mais sobem ao limoeiro, mais grave é a queda.
denunciacoimbra2
Fevereiro 17, 2008 em 8:35 pm