Estranha revolução esta

«(…) estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena. Assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram na véspera do terramoto.» Miguel Torga



R:
coimbra, 1 de junho de 1974
O Pavilhão Desportivo de Santo António dos Olivais
foi pequeno de mais para acolher o abismo de povo que acorreu ao primeiro comício do Partido Socialista em Coimbra, presidido pelo Poeta Miguel Torga.
Não sendo ele filiado, presidia àquela reunião na
simples qualidade de “homem socialista que sempre
fui”, como afirmou logo no início da sua intervenção.
Intervieram, entre outros, Paulo Quintela e Mário Soares, que andarilha por essa Europa fora e por este mundo de Cristo, como embaixador itinerante. Procura da parte dos governos dos diversos países o reconhecimento da nossa Revolução.
Desde que regressou do exílio, não pára um instante, a sua vida tem sido andar sobre brasas, numa verdadeira roda-viva. Por esta razão, o político há pouco empossado no cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros português chegou atrasado ao comício. Quando irrompeu pelo pavilhão dentro, estava Miguel Torga no uso da palavra. Ficou visivelmente incomodado, notava-
se-lhe pela cara de quase pânico, devido à berraria que de repente atroou todo o recinto…
No final não me escondeu o seu profundo desagrado
e até desabafou comigo, dizendo que Mário Soares
poderia ter esperado um pouco mais, cá fora, até ele concluir a leitura do seu discurso. Mas não. Quis testar a sua popularidade. E conseguiu-o, porque mal entrou toda a gente se pôs aos gritos, clamando pelo seu nome e ovacionando-o.
A partir daí, Miguel Torga perdeu o pé. Acabado o
comício, o Poeta ia distribuindo, a quem quisesse, fotocópias do seu discurso, uma bonita página de prosa poética, imprópria para ocasiões escaldantes como aquela que se vivia dentro do amplo pavilhão desportivo: “Homem mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais espontaneamente fraterno do que disciplinarmente
correligionário, mais atento ao imperativo
dinâmico de vozes remotas do que ao momentâneo
encantamento dos ecos doutrinários”, disse a
seu respeito a dado passo da sua intervenção.
Quanto a Paulo Quintela, com a sua voz firme de
homem de teatro, falou bem e quanto a mim trouxe
uma novidade: invectivou o General Spínola para que acabasse com a guerra nas colónias. É que dá a ideia de que ainda estamos com medo de falar sobre este verdadeiro fantasma que nos tem vindo acompanhando há mais de uma dúzia de anos.
In Relação de Bordo- 1964-1988 e Miguel Torga o Lavrador das Letras, de cristóvão de Aguiar.